Copa América: não foi primeira vez que Colômbia teve problema para sediar competição; relembre Em 2001, crise política entre as Farc e governo colombiano quase retirou competição do país

 Copa América: não foi primeira vez que Colômbia teve problema para sediar competição; relembre

Em 2001, crise política entre as Farc e governo colombiano quase retirou competição do país


A grave crise política e econômica que assola a Colômbia acabou custando ao país o direito de sediar a Copa América, decisão anunciada na última quinta-feira, pela Conmebol. No entanto, não foi a primeira vez que o país viu uma tensão social minar seus objetivos de sediar a competição. Há 20 anos, a Copa América quase mudou de lugar em razão do conflito entre as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) e governo colombiano.


Uma reforma tributária imposta pelo governo foi estopim dos protestos que inviabilizaram a realização do torneio neste ano, em um movimento formado por setores populares. Situação bem diferente do que aconteceu em 2001, quando uma onda de ataques violentos e sequestros realizados pelas Farc espalharam um ambiente de tensão e insegurança, de modo que a realização do campeonato ficou por um triz.


O ge relembra essa história, desde o sequestro do vice-presidente da Federação Colombiana de Futebol, Hernán Mejía Campuzano, a desistência de Mauro Silva, a eliminação surpreendente da seleção brasileira para Honduras e o título do time de casa, liderado pelo atacante Victor Aristzábal.


O FANTASMA DE 1986 E O SEQUESTRO DE CAMPUZANO


Em 1974, a Colômbia foi escolhida para sediar a Copa do Mundo que aconteceria 12 anos depois. Ao longo do tempo, porém, o país não conseguiu atender às muitas exigências da Fifa, houve atrasos na construção de estádios e uma crise financeira que se abateu sobre o país não permitiu extravagâncias. Portanto, o presidente Belisário Betancur, empossado em 1982, decidiu abdicar do torneio, e fez duras críticas às exigências da Fifa, que considerou exageradas.


Com essa imagem no passado, a Copa América de 2001 seria a oportunidade de mostrar que o país tinha capacidade de organizar uma grande competição. Desta vez, governo, população e dirigentes do esporte estavam afinados para a realização. O contexto político do país, no entanto, mais uma vez foi obstáculo para os planos de receber o evento.


Há mais de 30 anos, a Colômbia vivia um conflito entre as Forças Armadas e os guerrilheiros das Farc. O governo do então presidente André Pastrana estava perto do fim e havia conversas com o líder máximo da guerrilha, Manuel Marulanda, em busca de um acordo de paz. Mas os diálogos esfriaram e não houve um trato, o que resultou em uma crescente onda de violência promovida pelas Farc em todo o território colombiano.


A tensão chegou ao ápice quando o vice-presidente da Federação Colombiana de Futebol, Hernán Mejía Campuzano, um dos organizadores da competição, foi sequestrado quando saía de sua fazenda, quando faltavam apenas 15 dias para o início da Copa América. Pouco tempo depois, o dirigente foi liberado, mas alguns danos foram irremediáveis. Argentina e Canadá desistiram de disputar a competição em protesto.


"Copa da Paz"

O boicote das seleções, o receio de ondas de violência durante o torneio e a pressão internacional colocaram em risco a manutenção da Colômbia como sede. Foi necessário um grande esforço coletivo para que o país pudesse receber a Copa América, como explica o jornalista colombiano Orlando Ascencio, sub-editor do jornal El Tiempo, que participou da cobertura em 2001:


- A mudança era uma possibilidade real naquele momento. Mas tudo foi contornado. Primeiro, pela liberação de Mantuzano e, segundo, por um grande esforço diplomático de Pastrana para mostrar que a Copa poderia ser mantida. O presidente da federação colombiana Alvaro Fina também participou da negociação com o presidente da Conmebol, o paraguaio Nicolás Leoz, que tinha uma boa relação com a Colômbia, sua esposa era colombiana. Eles trabalharam bastante para manter a competição - conta Ascencio.


Diferentemente do que ocorre nos protestos atuais, que criticam a realização das partidas de futebol, inclusive com protestos no entorno dos estádios, em 2001 a Copa América simbolizava a união do povo colombiano, de acordo com o jornalista Manuel Ortega.


- Seria a Copa da Paz. Uma maneira de a Colômbia limpar sua imagem internacionalmente. Pastrana ofereceu garantias, fez um grande trabalho diplomático para os países vizinhos apoiarem a Colômbia. Foi um evento que serviu para unir o povo colombiano em torno da Copa América. Por um mês, a Colômbia viveu em paz. Foi um remanso de paz - relembra Ortega.

Assim ocorreu. Governo e Farc estabeleceram uma trégua durante a competição. Costa Rica e Honduras entraram no lugar de Argentina e Canadá. A competição foi realizada com estádios quase sempre lotados, muitos turistas e um clima festivo ao redor do país.


A desistência de Mauro Silva da Seleção e a eliminação para Honduras

Era 9 de julho de 2001, a delegação brasileira deixara a concentração em um hotel em São Paulo e se dirigiu ao aeroporto de Guarulhos. Pouco antes do embarque para a Colômbia, com as malas despachadas, o volante Mauro Silva, campeão mundial em 1994, anunciou aos companheiros e ao técnico Luiz Felipe Scolari que não viajaria. A decisão foi um baque para treinador, que iniciava sua trajetória na Seleção Brasileira e tinha o volante, de 33 anos, com um dos pilares de sua equipe.


Dias depois, Mauro Silva deu entrevista coletiva em que justificou sua desistência. Para ele, a continuidade da Copa América colocava em risco à integridade dos jogadores.


"Quis mostrar a minha revolta com o fato de os interesses políticos e econômicos falarem mais alto. Se, há uma semana, a Colômbia não tinha condições de realizar a Copa América, por que agora tem? O que mudou? Foi pressão dos investidores? O interesse daqueles que teriam prejuízo com o cancelamento da Copa América é mais importante do que a vida humana?" - disse à época.

Depois deste episódio, Mauro Silva não foi mais convocado por Scolari e, portanto, ficou fora da formação que conquistou a Copa do Mundo de 2002 no Japão. Mas o volante não foi o único medalhão que não jogou. Antes mesmo da convocação, outros destaques brasileiros na Europa foram poupados, como Ronaldo e Ronaldinho, e a seleção que viajou era formada, basicamente, por jogadores que viam na competição uma oportunidade de mostrar serviço para o novo técnico.


Mas não foi bem isso o que se viu em campo. A Seleção fez uma campanha bem irregular na fase de grupo, em Cali, e estreou com derrota para o México. Mas, ainda assim, conseguiu avançar para o mata-mata. Foi nas quartas de final, para Honduras, que sofreu uma das derrotas mais marcantes de sua história, na altitude de Manizales.


A equipe teve uma atuação muito ruim, em um cenário que nem Denílson, destaque da competição, foi capaz de reverter. Depois de 0 a 0 na primeira etapa, o time brasileiro foi surpreendido por um gol confuso, em que Martinez cabeceia, a bola bate na trave, depois em Beletti, antes de entrar. A situação desestabiliza a equipe, que fica vulnerável e sofre o segundo de Martinez. Nas arquibancadas, houve festa dos torcedores colombianos, que apoiavam o time da América Central. Veja o vídeo da derrota abaixo:


Colômbia campeã

Após um período como treinador da seleção do Peru, Francisco Maturana voltou ao comando da Colômbia. Uma de suas primeiras medidas foi renovar o plantel, uma geração que havia disputado três copas do mundo.


- Maturana tratou de encontrar uma equipe nova, com jogadores que pudessem jogar as Eliminatórias. Entraram Fabian Vargas, Hernandez, Aristzábal, que foi o grande destaque da seleção. Era uma equipe nova, e Maturana tentou implementar o estilo de jogo que utilizava em 1994 - analisa Orlando Ascencio.


- Era um time de futebol bem jogado, de posse de bola. Foi a equipe que ganhou todas as partidas, não sofreu gols, Aristzábal foi o artilheiro, era um time redondo. Dizem que aconteceu porque o Brasil não trouxe os titulares e a Argentina não veio. Mas não deveriam dar deméritos à Colômbia por uma decisão que a Argentina e Brasil tomaram - completa Ortega.

O time foi um sucesso. Ganhou todas as seis partidas que disputou na competição e não sofreu um gol sequer. Na semifinal, derrotou Honduras, o algoz do Brasil, por 2 a 0 e conquistou o título com uma vitória por 1 a 0 sobre o México. O final feliz tão esperado pelo povo colombiano que, durante aqueles dias teve muitos motivos para comemorar.


E 2021?

Veio, justamente, do povo a maior oposição à Copa América em 2021, na Colômbia. Vale ressaltar que a competição seria realizada em duas sedes - Argentina e Colômbia. Até que, na última semana, surgiram rumores de que os jogos da competição poderiam sair do país, o que se confirmou na última quinta-feira, após uma reunião entre governo e Conmebol.


A recente crise na Colômbia eclodiu após o anúncio da realização de uma reforma tributária pelo governo, que aumentaria impostos de parte da população, segundo movimentos populares. Em reação à medida, parte da população realizou diversos protestos, greves, que foram duramente reprimidos pelas forças do Estado. Em 22 dias de embate, movimentos sociais afirmam que 42 civis foram mortos e centenas de feridos.


Neste cenário, o futebol também se tornou um alvo dos protestos. Depois da mudança de sede, o episódio mais marcante ocorreu no duelo entre América de Cali e Atlético-MG, na Colômbia, quando o jogo teve de ser paralisado por cinco vezes porque o gás lacrimogêneo utilizado para dispersar manifestantes acabou atingindo os jogadores em campo. Muitos se sentiram mal, chegaram a ir para o vestiário, e as imagens dos jogadores afetados no gramado correram o mundo.


Para o cientista político e professor de Relações Internacionais da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, Maurício Santoro, ocorre uma falta de sensibilidade dos dirigentes do futebol quanto aos efeitos provocados pela pandemia.


- Onde o futebol se encaixa? A América Latina é uma das regiões mais atingidas do mundo por problemas financeiros e número de mortes decorrentes da pandemia. Será que é o melhor momento para fazer esses campeonatos? Na Colômbia, isso se chocou muito forte. Caíram na ilusão de fazer a Libertadores (e Copa América) como se os protestos não estivessem acontecendo. A gente viu como os efeitos entraram em campo literalmente.


Com a decisão de retirar a Copa América da Colômbia, todos os jogos estão previstos para acontecer na Argentina. A Conmebol garante que não haverá atrasos nos jogos, mesmo com as mudanças repentinas. Entretanto, nesta sexta-feira, faltando 20 dias para o início da Copa América, o governo argentino anunciou medidas de restrições para conter o avanço do novo coronavírus. Entre elas, a paralisação do futebol local até o dia 30 de maio.


A Conmebol garante que os jogos da Libertadores e Sul-Americana serão mantidos, bem como a Copa América. Mais uma vez a pandemia se impõe contra o futebol.


Fonte: https://globoesporte.globo.com/futebol/copa-america/noticia/copa-america-nao-foi-primeira-vez-que-colombia-teve-problema-para-sediar-competicao-relembre.ghtml#GE-FEED-user-sel-27,editorial,a37a8f78-f0df-4843-a51d-e15c9ac19edc




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